Recebi um e-mail do amigo advogado José Maria da Costa, comentando o post sobre “fidelidade partidária”. Como já disse em outra ocasião com relação ao outro José, amigo fica aqui em cima. Publico a seguir e comento depois, claro!

“Prezado Marcelo , tratando-se de política, de fato é difícil saber quem é o lobo e quem é o cordeiro ou quem estaria disfarçado de que, no entanto, o importante é analisar os interesses, pois política é um jogo desses.
No caso analisado (tão difícil falar em ‘fidelidade’ dentro da política, não é mesmo?), discordo do exemplo do casamento, na minha opinião, mal colocado.

Quando se casa com alguém, se jura ser fiel até a morte (um dos deveres do casamento). Se sua mulher muda de sexo, a separação tem uma causa legal que justifique. No entanto, se sua mulher muda de comportamento ou passa a ser mais amarga, seu dever de fidelidade deve subsistir, pela força do juramento…

No caso da fidelidade partidária, da mesma forma: se você deve fidelidade ao seu partido, deve sempre, ainda que ele se junte a um outro, para se tornar um terceiro, pois esse último só existe em virtude da junção dos outros dois. Ademais, uma junção política só pode ocorrer se existirem ideologias semelhantes.

Não se pode usar como desculpa (diria ‘esfarrapada’) para ser infiel o fato de seu partido ter se juntado a outro para criar um terceiro… Um marido jamais pode justificar sua infidelidade pelo fato de sua mulher ter se tornado chata ou ranzinza.

Vale lembrar que a fidelidade partidária existe há um razoável tempo, mas que só agora veio à tona, devido a interesses (de novo, essa palavra) de alguns.

Como se vê, cada político se defende segundo seus interesses… nesse caso o interesse dos ditos prejudicados com a tal ‘fidelidade’ convenceu a opinião do jornalista. Talvez novos argumentos o façam mudar seu pensamento. Como tudo vai depender do Direito, essa ciência HUMANA, vai sobrar argumentos de todos os lados!”

MINHA VEZ - Para quem não conhece, José Maria da Costa é aquele que aparece agarrado por Seu Gerúndio na foto de capa que a Tribuna publicou no fim de semana, ao lado de Vartão de Lara. Está, evidentemente, constrangido com o aperto “ideológico” que representam estas duas figuras da política nativa.

Não obstante, José também mostra-se empolgado com sua incursão no mundo político-eleitoral, agora no pomposo posto de presidente do diretório do PDT. Pena que esteja dividido entre pontos tão distintos. Talvez isso justifique a argumentação trôpega que utilizou para tentar fazer-me mudar de idéia.

Não entendi, na verdade, se o amigo discorda de mim ou do exemplo que utilizei. Pode ser dos dois. O amigo também não deixa claro se sua análise é sobre o ponto de vista político ou de Direito, que são coisas distintas. Não ficou claro, ainda, se o comentário é com foco pragmático ou filosófico. Por fim, meu caríssimo interlocutor também coloca no mesmo tacho o Direito civil com religião, o que é imperdoável para um causídico tão gabaritado quanto ele.

Mas vamulá! A selva é grande e não vou deixar o amigo sozinho no meio desses lobos em pele de cordeiros, mesmo que isso me custe mais umas “mordidas” da ira alheia que não consegue entender o papel de jornalistas no processo político.

Diz o advogado que o exemplo do casamento foi “mal colocado” por mim, “(…) porque quando se casa com alguém, se jura ser fiel até a morte”. Mas onde está escrito isso, doutor? Nas tábuas de Moisés? Só pode ser, porque no Direito Civil, que o nobre advogado conhece bem, não é preciso subir o Monte Sinai para arrumar uma “causa legal” para justificar a separação. Basta a simples incompatibilidade de gênios e pronto, cada um vai cuidar da sua vida. Percebe, agora, a miscelânea que está propondo, amigo? Melhor deixar as crenças fora disso.

Vejam, agora, como o doutor escolheu um partido para o seu Deus, ou um Deus para o seu partido: “No caso da fidelidade partidária, da mesma forma: se você deve fidelidade ao seu partido, deve sempre, ainda que ele se junte a um outro, para se tornar um terceiro, pois esse último só existe em virtude da junção dos outros dois. Ademais, uma junção política só pode ocorrer se existirem ideologias semelhantes”.

Deixando a religião de fora, a discussão fica bem mais interessante, tanto do ponto de vista pragmático quanto filosófico. Podemos debater, por exemplo, qual é a “ideologia” que fez Bob Nando e Fred Vartão, eleitos com o ex-prefeito Erval Steiner, a se unirem com seu rival, o Gerúndio do PT? Por acaso é a ideologia do mensaleiro Valdemar Costa Neto, o patriarca do PL que virou PR? Ou a ideologia Zé Dirceu? Ou seria a de Marcos Valério? Deixo o doutor Zé Maria responder para vocês: “cada político se defende segundo seus interesses…”

Ora, ora, é com esse pensamento que o jovem causídico se propõe a entrar na vida pública? Quer dizer que, na sua visão, a “política” está reduzida a “um jogo de interesses pessoais” e ponto final? Diga-nos, então, amigo, qual é o seu interesse em ser presidente do diretório do PDT e posar esmagado por tanta contradição?

Obviamente, não compartilho dessa opinião. Preocupa-me, aliás, ver um jovem com carreira promissora (tanto no campo do Direito quanto da vida pública) adentrar na política pela porta dos fundos, com seu campo de visão reduzido a interpretações tão mesquinhas.

Lamento, também, vê-lo tão artificial ao lado dessas companhias. Você deve mesmo estar embebecido com a Água Velva que Bob Nando lhe serviu. Sai dessa, José! Ressaca moral vai lhe dar muito mais dor de cabeça do que aquelas cervejas que, de vez em quando, compartilhamos.