Os petistas e as louras burras
Publicado por Marcelo Mastrobuono em 23 Jan 2007 | sob: Política
Que grata surpresa: dois comentários no blog de gente de verdade, com nome e sobrenome. Maravilha! Um deles, do repórter de IstoÉ, Chico Silva, já respondi diretamente, via e-mail. Nada demais. Só um esclarecimento sobre um ponto da matéria sobre a “Didática de esperteza” que, a meu ver, ficou confusa quando se refere a erros das apostilas. No restante, achei muito boa a reportagem. E como já disse, isso vai dar muito o que falar.
O segundo é do advogado Luís Antônio Albiero, da vizinha Capivari. Escreve-me para relembrar certa conversa que tivemos anos atrás e faz observações sobre o artigo “A imprensa amiga, a covardia e podridão escancarada”.
Albiero, sobrenome conhecido também em nossa cidade, queixa-se, em especial, do que ele interpretou como uma generalização que fiz do petismo, nas seguintes afirmações: “Santo Deus, quanta ignorância! Tem tudo para ser um petista” e, depois, em “é um petista de carteirinha e nada acrescenta ao jornalismo de verdade”.
Entende o advogado que generalizei e, muito elegantemente, conclui que o coloquei no mesmo baú, já que admite ser um “petista de carteirinha”. “Eu, por exemplo, sou advogado. Decerto, por ser petista, sou também ignorante e nada acrescento à advocacia ou ao Direito…”
Como se vê, generalizações são mesmo perigosas, razão pela qual as evito. Nunca disse que todo petista é ignorante. Releiam o texto e confiram. Disse, sim, que a ignorância do referido jornalista ao inventar uma história e confundir profissão com identidade o credencia para ser um petista. É diferente! Estava falando de um jornalista ignorante em seus objetivos e que foi usado para produzir uma matéria em defesa dos interesses da Prefeitura, administrada pelo PT. Foi só isso, nada mais.
Albiero, que mui carinhosamente me chama de amigo, ainda faz a analogia do meu comentário com sua atividade profissional de advogado. “Decerto, por ser petista, sou também ignorante e nada acrescento à advocacia ou ao Direito…”
Nada disso, amigo. Reafirmo: petistas de carteirinha nada acrescentam ao jornalismo de verdade. Nem petista, nem peessedebistas, nem malufistas ou qualquer outra sigla proselitista. De carteirinha ou não. Já o Direito trafega por caminhos bem distintos. Advogados são remunerados para defender os interesses de seus clientes; jornalistas ganham para correr atrás da verdade, independente de quem ela atinja. Pelo menos é essa a teoria que eu pratico.
A analogia que se propõe o amigo de Capivari seria algo do tipo chamar alguém de “loura burra” e, logo, concluir que “todas as louras são burras”. Isso sim é uma generalização e, como tal, perigosa.
Não obstante, recebi com apreço o comentário e, acredite, aceito as críticas. Embora já tenha feito os esclarecimentos necessários, vou refletir sobre elas. Fique à vontade para comentar, criticar e discordar das opiniões e considerações pessoais de meu blog. Gostaria, sinceramente, que outros nomes o sobrenomes se apresentassem para discordar do que penso, ou mesmo me chamar a atenção para certos pontos que, às vezes, passam despercebidos. Apesar da boa visitação, só recebo xingamentos anônimos, que por motivos óbvios não reproduzo.
Veja só, Albiero, sobrou para você tomar as dores, indevidamente, dos “petistas” que se amontoam às pencas na nossa administração municipal, que vai de mal a pior. A senhora autoridade quer ser dona da verdade, custe o que custar. Acredita que pode escamotear os seus sucessivos equívocos, trocando favores com a “imprensa amiga” que só reproduz releases oficiais.
Por certo, caro Albiero, não pensam como você, não agem como você e, imagino, pouco têm a acrescentar ao petismo que você tão apaixonadamente ainda defende. No seu lugar, se me permite mais uma observação, tomaria mais cuidado ao apadrinhar, genericamente, “correligionários” sob a sigla da nostalgia-ideológica que se esfacelou no exercício do Poder. E não faltam exemplos de “aloprados” para ilustrar o que ora vos digo.
Por fim, Albiero, lamento pelo insucesso de seu projeto editorial de nossa conversa antiga. Se fizer um esforço de memória, também se lembrará das recomendações que fiz sobre os percalços que encontraria no exercício de jornalismo com suas funções político-partidárias. São incompatíveis. O fato de ter sido vereador (do PT ou qualquer outro partido) talvez também tenha pesado na morte-súbita de sua revista. Mas isso não pode – nem deve – ser supervalorizado. O importante é continuar a luta na defesa de seus ideais, seja como político, advogado ou cidadão comum. Imagino que Capivari deva se orgulhar de ter um “petista-de-carteirinha” como você, que, antes de tudo, é um cidadão que merece respeito! Fique em paz com os seus botões. Até breve!
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Prezado Marcelo,
Não quero tomar mais do seu tempo, nem do seu espaço. Escrevo para, espero que em breves palavras, agradecer à atenção de que meu comentário foi merecedor de sua parte.
Tampouco pretendo alongar a prosa anterior, mas não posso deixar de discordar quando o amigo, ao dizer que evita as generalizações, afirma que quem as fez fora eu.
Desculpe-me, talvez seja mesmo irremediável burrice a minha, mas na frase “Santo Deus, quanta ignorância! Tem tudo para ser um petista”, a leitura que fiz – e me perdoe se estiver enganado – foi de que a presença de “tanta ignorância” em alguém conduz logicamente à conclusão de que essa pessoa “tem tudo para ser petista”. Invertendo o raciocínio, pareceu-me ter lido que para ser petista é necessário acumular ignorância. Bom, mas vá lá que tenha sido uma infelicidade de minha parte, uma leitura enviesada, apenas isso; admito a hipótese, pois não sou inflexível.
De toda sorte, o que me move a escrever-lhe, em verdade, é a suposição que o amigo fez de que o meu projeto de revista teria tido “morte súbita” por eu ter sido vereador. Não é verdade. Pois foi na mesma condição de político que fundei, com amigos, o jornal “Dois Pontos Capivari”. Todos nós, os quatro fundadores, éramos e continuamos sendo filiados e militantes petistas. Mas firmamos uma regra, que seguimos à risca, no longínquo ano de 1993, de que o jornal não haveria de ser porta voz do partido, tampouco vitrine dos políticos que o dirigiam, nem mesmo de seus correligionários.
Assim fizemos, e o jornal existe até hoje – embora eu, por razões profissionais, tenha deixado a sociedade em 1997. Foi um furor no nascedouro e permanece líder da preferência popular, graças à credibilidade que ostenta. Sobrevive com imensas dificuldades, mas segue firme, absolutamente alheio às benesses públicas, mantendo-se numa linha de independência em relação aos poderes públicos – municipal, estadual, federal. Em março, completará quatorze profícuos anos.
Não sou jornalista, e lamento muito por não o ser, mas não sou um aventureiro no ramo das comunicações. Meu primeiro emprego foi como entregador do extinto jornal Tribuna Regional, de Capivari, do qual tornei-me revisor, depois redator, aos dezessete, dezoito anos de idade. Nasceu aí minha paixão pelo jornalismo, filhote já da paixão pela literatura. Anos depois fundei o jornal Dois Pontos, fui seu editorialista, chargista, quadrinista, colunista e articulista. Hoje, extravaso minhas paixões editando modestamente um blog – e neste, sim, permito-me dar fortes pinceladas com as cores político-ideológicas da minha preferência. Faço-o porque não se trata de jornal. Não tem o blog o compromisso com a imparcialidade que deve ter um jornal ou uma revista. É apenas um veículo das minhas opiniões e impressões pessoais, no exercício do meu constitucional direito à liberdade de expressão, nesse território livre que é a Internet.
Para finalizar, esclareço que o meu projeto da revista pereceu porque não sou empresário, descobri que não tenho vocação para ser, só por isso. Pereceu na primeira edição, mas ela ficou linda, ótima, modéstia à parte. Espero que seja lembrada na rica história da imprensa capivariana.
Mais abraços!
PS.: a propósito, o meu sobrenome, assim como o dos tantos parentes que tenho aí na amável Porto Feliz (todos originários de Capivari - hoje território de Rafard -, para onde vieram os italianos de Cavarzere, no Vêneto, no final do século XIX), grafa-se Albiero, não Albieiro.
Bom ter interlocutores dessa envergadura. Já corrigi o sobrenome, amigo Albiero.